bloco de notas






disco________________




Alegria Girar

Validuaté
[Bumba Records, Brasil, 2009]
Quaresma, Thiago E, Vazin, Júnior, Wagner Costa, John Well


Com diversas letras interessantes, pelo inusitado ou pela ironia certeira, aliadas a um significativo trabalho de arranjo e harmonia, a banda piauiense Validuaté apresenta seu segundo disco, Alegria Girar. A irreverência que caracteriza a banda desde o primeiro trabalho, Pelos Pátios Partidos em Festa (2008), continua rendendo bons frutos, como a ótima Eu só quero acabar com você, com sua introdução que parece debochar do lugar-comum da swingueira e sua letra que mais parece uma releitura desconcertante do Samba do grande amor do Chico Buarque. O desafio de passear por diversos estilos e manter uma musicalidade coesa, que garanta a identidade musical da banda, ainda não parece superado; mas o Validuaté realizou em Alegria Girar um grande passo rumo à maturidade artística. Um bom indício é que, no quesito "brega'n'roll", a faixa Bruta como antigamente, de autoria de Thiago E., Quaresma e Ricardo Totte, cumpre melhor essa função que a Eu preciso de você, cover de Márcio Greyck, apesar do ótimo aproveitamento de Sentimental, dos Los Hermanos, como música incidental. Resta agora conseguir desamarrar-se das inevitáveis influências que em alguns momentos parecem soar mais alto que a banda. Trata-se da eterna luta que angustia todo artista consciente de seu papel: a busca de uma voz própria, relevante e reconhecível. Mas é um desafio que estes jovens músicos já se mostram aptos a superar, e até lá, "já é tempo de sair do lugar, já é tempo da alegria girar". Parabéns, rapazes. A alegria girou.
[Adriano Lobão Aragão]





Você e Eu

Teresa Salgueiro e Septeto de João Cristal
[EMI, 2007]



Teresa Salgueiro sempre foi associada ao grupo “Madredeus”. De fato, este foi o grupo musical responsável pela ascensão da carreira artística da cantora portuguesa, que esteve presente nele desde a sua formação até o ano de 2007. Entretanto, Teresa mostrou – a partir de 2005 (início de sua carreira-solo) – que suas interpretações extrapolavam a musicalidade do “Madredeus” e se estendiam às canções populares de diversos contextos musicais (brasileiro, norte-americano, etc.).

“Você e eu”, trabalho solo lançado em fevereiro de 2007, está entre os grandes álbuns de “música popular brasileira”. Digo “brasileira” não só pelo fato de se tratar de uma obra composta de canções populares nacionais, mas também porque há, em “Você e eu”, uma rítmica, um suingue, uma dicção brasileira. Aos defensores ferrenhos de uma música nacional, o disco pode não agradar, pois para muitos interlocutores a música é “coisa do sangue”. Não sendo possível, dessa maneira, um músico de origem estrangeira executar de forma convincente a nossa música. Para os que compreendem o discurso musical como um fenômeno cultural amplo, um sistema de signos aberto a novas interpretações e recriações, a obra é um rico convite à nossa percepção e deleite musical.

Uma voz de soprano exata, sem torneios melódicos e coloraturas desnecessárias. Um timbre belo e agudo, mas sem vibratos ornamentais. Assim podemos falar, em linhas gerais, da voz de Teresa. Como João Gilberto, cada palavra cantada por ela é rigorosamente medida e pesada, para que melodia, letra e arranjo formem um todo indissociável. Os arranjos instrumentais (do grupo Septeto de João Cristal) – a la manieira jobiniana – são construídos com poucas notas e não procuram chamar a atenção para si mesmos. E quando coloco o nome de João Gilberto e Tom Jobim, não se trata de uma comparação à toa. A linguagem da bossa nova é, efetivamente, a base musical de todo esse trabalho musical da cantora portuguesa. Nada de dramatismos, de interpretações virtuosísticas e afetadas. Estamos mais próximos do mundo musical de uma Miúcha, de uma Leila Pinheiro, do que de uma Elizete Cardoso, de uma Elis Regina (em alguns momentos de sua carreira).

Figuram, dentre os vários compositores interpretados: Ary Barroso, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Pixinguinha e Dorival Caymmi. Como podemos notar, estão em pauta as principais matrizes composicionais e poéticas da nossa música popular urbana.

Dentre as ricas interpretações de Teresa, destaco “Modinha” (de Antônio Carlos Jobim). A voz bela e bem projetada da soprano é acompanhada por um arranjo de piano e cordas friccionadas (uma herança do “Madredeus”?).  Ela canta, com uma exatidão e uma afinação precisa, cada nota da melodia passionalizada de Tom Jobim. A canção jobiniana passa a nos transmitir uma sensação de melancolia e distanciamento entre sujeito e objeto pouco observado em outras interpretações. Isso porque todo o conjunto (arranjo, canto, dinâmica, fraseado, etc.) é composto em função da obra jobianiana e não para mostrar virtuosismos estéreis.

Para quem compreende a canção popular como um rico sistema de comunicação artística e não apenas como um entretenimento, “Você e eu” é uma obra de grande valor. Teresa Salgueiro, muito mais do que uma cantora de voz bonita, é uma intérprete exigente, que procura (como diria Luiz Tatit a respeito de João Gilberto) descobrir várias canções dentro de uma mesma canção.
[Alfredo Werney]



livro________________








Venho de um País Selvagem

Rodrigo Petronio
[Toopbooks / ALB, Rio de Janeiro, 2009]


Rodrigo Petronio nasceu em São Paulo em 1975, dizem as fichas biográficas, mas é claro que ele vem “de um país selvagem”, um país definitivamente poético e certamente não contaminado pela prosa. Desse país já havia registro nos seus livros anteriores: História natural (São Paulo, 2000), Assinatura do Sol (Lisboa, 2005), Pedra de Luz (São Paulo, 2005). É de fato um país onde só um poeta inspirado, em pleno domínio da linguagem, mas também tomado por ela, poderia ser capaz de perder-se e de se reencontrar em cada poema, como em cada passo da aventura humana no Universo. Nem rousseauniano nem junguiano, Petronio não aceita formular hipóteses nem recorrer a símbolos nem a teses.
Antes nomeia os elementos primeiros, a vida e a morte, os ancestrais interrogantes, os deuses que o habitam, a adivinhação nossa de cada amanhecer, o milagre da eternidade e o desafio do fim. Ele é neste livro um poeta para quem o amor propiciou este retorno ao magma de onde tudo surge e que se situa num território nas antípodas do caos. Neste mundo ordenado há avós, há um pai, há uma mulher amada – amada até esvaziar o próprio ser –, mas a aventura permanece de todos nós, é a aventura humana, e por isso ele cria uma poesia generosa, que inclui o leitor, que conta com ele, que se recusa a existir fora dele.

Sem dúvida, a lógica desta poesia, ou da poesia tout court, leva “nossos passos sobre a terra, entre as algas”. A preposição “entre” deveria ser a mais reiterada nesta série que nos situa na certeza de estar numa viagem perpétua, sempre num “ir para”, ainda que não existam o acima e o abaixo, os centro e as beiras, uma viagem que deve guiar-se sempre por palavras entreouvidas, por golpes de intuição e destruindo sem piedade as falsas verdades da prosa, de um saber “sensato” que nos é imposto como um lastro que nos impede o vôo, esse que era o nosso único destino e que Petronio reencontra para nós na poesia. Porque ela está além dos pequenos paradoxos dessa sensata razão imposta, e por isso nos permite ver o mundo a partir de um grau zero, ou de um grau novo, ou de um grau velhíssimo, imemorial como a água, como o pássaro, como o amor ou como os deuses.

Porventura alguém poderia se surpreender que um pensador como Petronio, que expôs suas idéias filosóficas num livro tão erudito como Transversal do tempo (Recife, 2002), um homem com uma sólida formação acadêmica em Filosofia e Letras, com anos de ensino e vários cursos, que um intelectual desse naipe encontre na poesia a forma mais precisa de conhecimento, e que essa forma de conhecimento seja tão diferente dos sabidos procedimentos acadêmicos? Talvez o diálogo que este livro estabelece com a poesia de Dora Ferreira da Silva – a quem o poeta dedica um dos mais belos poemas da série – explique que possam conviver nele o filósofo que reflete sobre a epistemologia e o poeta que se entrega a nós com sua verdade mais profunda e paradoxal, nessa lógica “não-euclidiana” e de ângulos inesperados que é a da poesia, onde tudo deve ser reinventado, absoluta e eterna como as carpas negras do tempo.
[Alfredo Fressia]










Ca
rta a D.

André Gorz
[Annablume/Cosac Naify, tradução de Celso Azzan Jr., 2008]


Ativista, filósofo, jornalista e teórico da esquerda. André Gorz - cujo nome verdadeiro era Gerhard Horst - é considerado um dos maiores intelectuais do século XX. Gorz foi um dos fundadores da revista "Le Nouvel Observateur" (O Novo Observador), tendo atuado também em outras publicações, como "Les Temps Monderns" (Os Tempos Modernos).

O intelectual judeu-austríaco se destacou como um ativista ecológico e crítico ferrenho do capitalismo, assinando obras como "Misérias do presente, riqueza do possível", "Crítica da divisão do Trabalho" e "O Imaterial: Conhecimento, Valor e Capital". Mas, seu último trabalho não alude à divisão de trabalho, alienação, preservação do meio ambiente ou qualquer coisa do gênero. André Gorz finalizou a carreira literária escrevendo uma carta de amor à Dorine, sua esposa e companheira de toda vida.

Em Carta a D. , o filósofo e jornalista se transforma em poeta, pincelando o arcabouço teórico que o projetou, com o cuidado de o colocar à sombra do amor e devoção que dedica à mulher: "(...) Você era o rochedo sobre o qual nós dois, nossa união podia ser construída." Em toda a obra, Gorz exalta as inúmeras potencialidades da mulher diante da fraqueza e limitação dele, um homem preso às teorias e conceitos.

Dorine foi acometida de aracnoidite, uma espécie de "meningite química, uma reação inflamatória da membrana, que pode gerar uma espécie de fibrose na região inflamada e causar dores". Como a intervenção cirúrgica é extremamente delicada (e o índice de sucesso não é tão animador), são recomendadas terapias alternativas. E foi exatamente esta a opção de Dorine, que aboliu o uso dos remédios e aderiu a aulas de ioga, autodisciplina, alimentação adequada (Gorz afirma no livro que pediu a aposentadoria só para tratar da rotina alimentar da esposa).

No geral, Carta a D. tem uma leitura agradável, fluente, acessível. Odes e floreios românticos são apresentados na medida certa e recontam a história de um casal que viveu e amou em consonância com um princípio maior: o da entrega mútua. Apesar disso, a obra peca pela 'intelectualização' do sentimento. André Gorz parece pensar exatamente nas palavras, na ordem da narrativa, no filtro que o texto deve seguir, coisas assim. Dá a impressão que ele elaborou parnasianamente um 'eu te amo', ao invés de despejar seu sentimento em um último gole, uma tragada arrebatadora de amor.

Se ele e sua esposa já estavam cogitando o suicídio - fato que aconteceria em 2007, um ano após o término da obra -, os sentimentos de Gorz deveriam estar ali, completamente despejados, da forma mais nua e aberta possível. A leitura deste livro me deixou um questionamento: Podemos expressar o amor por meio de palavras? Ou estaríamos limitando um sentimento sem campo de abrangência, justamente pelo seu caráter infinito?
[Mara Vanessa]









O Uraguai

Basílio da Gama
[Multiclássicos - Épicos. Organização de Ivan Teixeira. São Paulo, Edusp, Imprensa Oficial, 2008]



Ao louvar o iluminismo do Marquês de Pombal, através da atuação do general Andrada em Sete Povos das Missões, expulsando os jesuítas da região, Basílio da Gama conseguiu moldar belos versos e compor um dos primeiros poemas épicos brasileiros (?) com alguma relevância artística. Equivocadamente interpretado pelos românticos e muitas vezes lembrado tão somente pelo episódio da morte da índia Lindóia, o excelente prefácio de Ivan Teixeira consegue restabelecer o contexto e o interesse pelo poema, livre do sentimento nativista que a leitura romântica por muito tempo deixara de herança na obra deste homem que, embora nascido na terra que dentro em breve seria o Brasil independente, pensava, sentia-se e escrevia como um português, e lido desta maneira, seu O Uraguai torna-se bem mais interessante e coerente.
[Adriano Lobão Aragão]











Prelúdio para Arco e Flecha

Virginia Boechat
[Rio de Janeiro, Oficina Raquel, 2008]



Uma das gratas promessas para a poesia brasileira neste início de século, a mineira Virginia Boechat, radicada em São Paulo, estréia com um livro coeso e pungente, repleto de um lirismo desconcertante que remete a grandes poetas lusos, como Sophia de Melo Brayner Andresen; uma de suas influências evidentes. Para as letras brasileiras, diria que é uma vertente necessária e bem-vinda. Destaco, dentre outros, os poemas Quando menos se espera, Tua morte no meu dia, Carta da baía e Eu menti.
[Adriano Lobão Aragão]




filme________________






Up - Altas Aventuras

Pete Docter
[Up, EUA, 2009]
Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures



Cada vez fica mais fica perceptível a diferença entre a Pixar Animation e os demais estúdios do ramo, a exemplo da DreamWorks. O essencial desta diferença passa pela ordem técnica, mas não é exclusivo desta ordem. A Pixar sabe contar histórias – e criar liames entre o passado e o agora, entre memória e invenção que nunca são de natureza simplória, nunca são (como se vê nos concorrentes) o requentamento do clássico nem o pastiche pós-moderno que se exauriu e virou chatice já no decorrer da série Shrek.

Up (2009) começa como uma crônica de um casal pequeno-burguês que encontrou a joie de vivre numa existência recolhida e sem barulhos. Uma aurea mediocritas. Em poucos minutos, passeamos por diversas fases da vida do casal, suas alegrias bucólicas e suas tristezas, sempre representadas em pincelas impressionistas, tornando leve, mas não falso, os percalços da vida. Quem se impressionou com o início de Wall-E não sairá menos encantado deste: o controle do ritmo, os cortes, o tempo, a contenção do diálogo, tudo uma magistral aula de cinema. O início de Up faz imaginar um comercial de plano de saúde que não escamoteasse o que a vida traz de dor e sofrimento. Uma vida toda passa à nossa frente – e sentimos (eu senti, e sofri muito com isto) a vacuidade da existência, mas não de uma forma trágica. Lembrei-me da frase do cronista: “Viver é colecionar ruínas”. Eu acrescentaria, remetendo a Up: ... ruínas que nós amamos com uma leveza que não escamoteia seu fundo trágico. Ruína majestosa que no filme é um tal álbum que fez e fará muita gente ir aos prantos.

Pete Docter poderia manter esse ritmo e criar uma bela elegia sobre a memória e a velhice. Mas quando a gente acha que Docter e a Pixar vão cair na armadilha, nós é que caímos. Na segunda parte no filme, saímos da crônica do cotidiano e adentramos no reino da poesia. De repente, somos testemunhas de uma casa-navio que voa movida por milhões de balões cheios de gás hélio. Dentro dela, as duas pontas da vida humana: a velhice (Carl Fredricksen,78 anos) e a infância (Russel, 8 anos). Fredricksen busca a terra dos sonhos de sua falecida esposa, uma floresta tropical com deslumbrantes cachoeiras;  Russel, a última medalha que lhe falta na coleção de escoteiro (para ganhá-la, ele precisa ajudar um idoso). No fundo, buscam uma escora, um substituto para o que é insubstituível: a companheira de toda uma vida, para o velho e a mãe, para a criança (cujo pai, para completar, é muito desatento). Chegando à floresta, o filme acelera a montagem e a tecnologia (é o primeiro filme 3D da Pixar) começa a falar mais alto – sem abafar a beleza e a complexidade da história, a que se agregam novos e inusitados personagens, entre eles um pássaro selvagem e gigantesco, cães que falam e um ex-herói que vira vilão.

Up faz os recursos tecnológicos se casarem com a história sem subtraí-la e, em sua trajetória, vai corroendo a verossimilhança em prol da poesia e da aventura. O mais incrível é como esta mudança é tão bem equacionada que os personagens, em vez de irem se tornando mais inverossímeis, tornam-se mais e mais humanos.
[Wanderson Lima]









E Buda Desabou de Vergonha

Hana Makhmalbaf
[Buda as sharm foru rikht, Irã, 2007]
Abbas Alijome, Abdolali Hoseinali, Nikbakht Noruz



Há duas vertentes no cinema feito no Irã. Parte significativa da produção cinematográfica daquele país é uma reiteração, ainda que competente, de marcos estilísticos do neo-realismo italiano: histórias filmadas com amadores, denúncia social, mensagens humanistas, preferência pelo plano-seqüência. É a vertente do Majid Majidi de “Filhos do paraíso”, do Bhaman Ghobadi de “Tempos de embebedar cavalos”, do Mohsen Makhmalbaf de “A caminho de Kandahar”.  Ao lado desse realismo convencional – ora sumamente poético (Majid), ora pesadamente político (Mohsen) – situa-se a vertente mais fértil da escola iraniana, encabeçada por Abbas Kiarostami e que data, muito possivelmente, deste filme-impacto que é “Close-up” (1990). Para Kiarostami e os cineastas dessa vertente, a adesão ao realismo passa por uma crítica da auto-evidência da imagem e, por conseguinte, pela crítica à representação clássica do cinema. É aqui, neste lado, que devemos colocar este surpreendente “E Buda desabou de vergonha”, de Hana Makmalbaf, que chega ao seu segundo filme com apenas 18 anos de idade. Sim, ela é do clã do Makmalbaf, irmã de Samira (“A maçã”, “O quadro-negro”) e filha de Mohsen (“Um instante de inocência”). Mas é preciso muita má vontade ou falta de percepção para negar-lhe personalidade artística. Surperficialmente, Hana filma uma odisséia envolvendo crianças nos mesmos moldes de “Filhos de Paraíso” e “O balão branco” (Jafar Panahi). Mas me arrisco a dizer que ela vai além de seus antecessores, ou ao menos acrescenta novos elementos à fórmula, tão iraniana, da “odisséia infantil”: o cinema de Hana abre mão da verdade, evita julgamentos peremptórios e põe em cheque um dos mitos mais caros ao cinema de seu país: o da pureza e inocência da infância. Alguns dirão que se trata de um filme “feminista”. Não duvido. Mas o que está em jogo de forma mais ostensiva em todo o filme é a mímesis do social que envolve o ato de brincar. É aí que Hana descobre o germe de permanência da barbárie (lembro que ela filma no Afeganistão) – mas a filha de Mohsen não alardeia esta descoberta numa postura acima da situação (como fez seu pai em “A caminho de Kadahar”), nem se fecha num fatalismo derrotista. Pelo contrário, o filme é dominado por uma perplexidade surpreendente (mas nem tanto para quem conhece a biografia da moça) em alguém de tão pouca idade. O desfecho de “E Buda desabou de vergonha” é de uma beleza lírica e dolorosa, com uma interpenetração dos planos real e simbólico de tirar o fôlego (não pela ação, claro, mas pela complexidade da construção simbólica atingida na interação roteiro e montagem).
[Wanderson Lima]







O Lutador

Darren Aronofsky
[The Wrestler, EUA, 2008]
Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood




Nesse típico filme de personagem, o que mais interessa é a surpreendente atuação de Mickey Rourke no papel de Randy "the Ram" Robinson (o Carneiro), um veterano da luta livre que conheceu o estrelato nos anos 80 e agora, no apagar das luzes, vive a angústia do envelhecimento, dos problemas financeiros e de saúde, da solidão, sacrificando o próprio corpo em prol da auto-afirmação. Rourke, galã nos anos 80 (9 ½ Semanas de Amor, O Ano do Dragão, O Selvagem da Motocicleta etc), que amargou a sina de astro decadente, inclusive fisicamente, ressurge como concorrente ao Oscar, provando que ainda pode ser mais que o brutamontes Marv, seu eficiente papel em Sin City. Resta saber se é esse o seu limite como ator, em que tantas semelhanças poderiam ser enumeradas entre Randy e Rourke.

Em seu video-game, há o jogo personalizado de Randy "the Ram"; no seu carro, há o boneco de Randy "the Ram"; ícones que ele insiste em tentar passar para novas gerações. E numa cena antológica, vemos o Carneiro entrando no ringue para sua última luta, ao som do Sweet Child O'mine, dos Guns'n'Roses, em um êxtase de redenção como se, naquele momento, lhe fosse possível estar de volta aos anos 80. Mas Randy vive de um passado de glórias soterradas pelo tempo, e, fora dos ringues, não encontra seu lugar no mundo. E há o balcão de frios de um supermercado, onde amargaria seus dias de aposentadoria das lutas, do estrelato, lugar onde não mais deveria ser reconhecido.

O objetivo da câmera é seguir os passos de Randy, num tom quase que documental, e o faz com boa desenvoltura. Entretanto, o roteiro não consegue afastar-se dos clichês de sempre: a conturbada relação com a filha, a possibilidade de um relacionamento amoroso com uma striper que tem um filhinho (outra boa atuação, agora por conta de Marisa Tomei, também indicada ao Oscar), o comovente, mas desnecessário, discurso antes da última luta, e até um amiginho pré-adolescente entra em cena para jogar video-game com Randy. Mas o problema é que, assim como a típica luta livre estadunidense, os acontecimentos trabalhados no roteiro parecem golpes acertados previamente, num jogo de causas e consequências que, embora interessante, não parece fugir do óbvio, e para essa luta de Randy contra o destino que ele mesmo construiu transformar-se em uma obra genial (e não apenas um bom filme) era preciso mais que a tradicional coreografia das telas e dos ringues.
[Adriano Lobão Aragão]







Ensaio sobre a Cegueira

Fernando Meirelles
[Blindness, Japão/ Brasil/ Canadá, 2008]
Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal



Fernando Meirelles "adaptou" o romance de Saramago no sentindo mais negativamente hollywoodiano do termo, buscando efeitos de superfície e uma fidelidade ao texto que nada tem a ver com a apropriação criativa (Harold Bloom) ou a tradução intersemiótica ou qualquer outro nome que se dê à procura de equivalências entre sistemas artísticos e ao intento de uma leitura problematizadora. E ainda quis dá toques cults, que poucas vezes funcionaram. Por exemplo, valeu-se reiteradamente da fotografia em branco, com muitos momentos desfocados e outros até opacos, com o propósito de nos dá uma visão por dentro da cegueira e apenas foi óbvio e chato. Não soube sustentar o tom do filme entre o realismo bruto e a parábola, como aparentemente ele pedia, pelo que se deduz do que o filme se tornou. A fábula de Meirelles cai num humanismo fraco – e Saramago é mais duro e irônico, infinitamente mais complexo. Meirelles, a meu ver, está construindo uma carreira descendente diante da expectativa que nos deixou depois de “Domésticas” (2001) e “Cidade de Deus” (2002).
[Wanderson Lima]







O Curioso Caso de Benjamin Button

David Fincher
[The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008]
Brad Pitt, Cate Blanchet, Taraji P. Henson



A perfeição estética orquestrada por David Fincher em O Curioso Caso de Benjamin Button chega a ser um caso à parte nessa película extremamente bem produzida, mas somente os méritos técnicos não fazem de um filme uma obra grandiosa. Entre o elenco, destaca-se a atuação de Cate Blanchet, como sempre. Mas, infelizmente, permeia o filme uma incômoda sensação de "deja vu", na qual diversas vezes a estranha existência de Benjamin Button parece um revival da jornada de Forrest Gump (Forrest Gump, EUA, 1994), que, aliás, foi escrito pelo mesmo roteirista, Eric Roth (em Forrest, contou com o auxílio de Charlie Peters e Ernest Thompson). E por falar em roteiro, surge uma questão fundamental: era realmente essencial para história a leitura do diário de Benjamin Button em um quarto de hospital enquanto se aproxima o furação Catrina? É que os momentos mais irregulares do filme de Fincher acontecem ali, naquele espaço que Fincher e Eric Roth usaram para impulsionar a narrativa adiante, ainda que adentre pelos clichês do melodrama e outros artificialismos. De qualquer forma, Benjamin soa como um outro contador de histórias que, a exemplo de Gump, narra seu ponto de vista calcado na não compreensão da própria existência, ou numa compreensão bem pessoal. E daí desfilam outras semelhanças, como a relação com a fé e a religião; Gump cresceu numa pensão e Button num asilo; o envolvimento em guerras (Vietnã e II Guerra Mundial, respectivamente), sobrevivendo ambos a um fulminante ataque inimigo; a correlação entre o capitão do navio de Button e o tenente Dan de Gump é evidente, bem como o anão pigmeu e o soldado Bubba, ambos falastrões, cumprem funções semelhantes, como confidentes de um homem deslocado da sociedade dita "normal"; a paixão de infância vivenciada aos pedaços, em meio a trágicas complicações, como o acidente da amada de Button ou a doença da amada de Gump, mas é dessa relação que advém um filho, seu saudável legado. Enquanto o personagem de Tom Hanks, por suas limitações psicológicas, não consegue amadurecer, adentrar no mundo adulto, o personagem de Brad Pitt já nasceu velho fisicamente, um idoso-criança, e caminha para infância, onde todo amadurecimento que conseguir acumular terminará inevitavelmente no que deveria ser seu ponto de partida. Ao longo de toda sua trajetória às avessas, como o relógio inaugurado no início do filme, que gira ao contrário, emana a impressão de que Button é sempre o mesmo, como alguém que, por nascer velho, não lhe fosse possível amadurecer. No final dos dois filmes, resta uma criança chamada Forrest Gump (que vai à escola, porém, já não é o mesmo Forrest, nosso contador de histórias, mas seu filho) e outra  chamada Button (que inevitavelmente irá desaparecer). Enfim, não é uma má história. Leia o conto original de F. Scott Fitzgerald e confirme. 
[Adriano Lobão Aragão]







A Conquista da Honra

Clint Eastwood
[Flags of our Fathers, EUA, 2006]
Ryan Phillipe, Jesse Bradford, Adam Beach



Produzido por Steven Spielberg e pelo próprio Clint Eastwood, A Conquista da Honra não é, essencialmente, um filme de guerra, tampouco a visão americana do conflito em Iwo Jima que se contrapõe a uma visão japonesa apresentada em Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), realizado simultaneamente por Eastwood. A princípio, poderia ser a reutilização de um recurso que pode ser visto em O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, 1962), dirigido por Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki, abordando o desembarque dos aliados na Normandia a partir dos dois lados em conflito, mas Eastwood quis ir além da mera documentação histórica, da representação/encenação do combate. A Conquista da Honra volta-se para algo maior, mais abrangente e fundamental para a construção da vida contemporânea, não apenas ocidental: o poder da imagem. Essa visão torna-se mais relevante nos dias atuais que em 1944, numa sociedade cada vez mais voltada para a estética iconográfica. É o contraste entre a aparência e a essência, entre o real e o simbólico que interessa a Eastwood. E sobretudo para os propagandistas militares americanos, que precisam de dinheiro para continuar uma guerra que, segundo suas próprias palavras apresentadas no filme, durou mais do que deveria (o que corresponde dizer que "gastou-se mais do que deveria"). Mas, a partir da imagem de seis soldados fincando uma bandeira no alto de uma montanha japonesa, as pessoas estariam dispostas a patrocinar aquela guerra, pois não estariam comprando bônus de guerra do exército, mas investindo em heróis que, com certeza, trariam a vitória. Aquela foto era mais que uma esperança, era uma garantia. A controvérsia das bandeiras, a morte de diversos soldados, a tênue linha entre a homenagem e o anonimato, juntamente com a angústia de Reyes, o soldado indígena, o altruísmo de Doc e o senso oportunista de René nos remetem a uma nova história sobre uma bandeira e seus frágeis personagens, uma história muito mais instigante e sincera que a história oficial, recontada por Eastwood em seu habitual estilo sóbrio e equilibrado, como uma reminiscência do que Hollywood já teve de clássico. Mas há um senão: o final ancora-se excessivamente na necessidade de um narrador, arrastando-se demais. Essa indeterminação de encerrar a película é uma característica recorrente em outros filmes de Eastwood, como A Troca (Changeling, 2008) e Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), mas felizmente não chega a comprometer a relevância e a harmonia de suas obras. Talvez porque, acima de tudo, Eastwood é um cineasta necessário.
[Adriano Lobão Aragão]








Coraline e o Mundo Secreto

Henry Selick
[Coraline, EUA, 2009]
Laika Productions / Pandemonium Films


Foi Walter Benjamin quem decretou o fim narrativa tradicional, associando este fato ao descrédito da experiência no horizonte da sociedade capitalista industrial, onde a sabedoria é substituída pela informação pragmática e a tradição pelo culto da novidade. Na leitura de Benjamin, os contos maravilhosos, os mitos, as epopéias, os provérbios, enfim, as formas de narrativa tradicionais deram lugar ao romance (forma narrativa degenerada, por se calcar na busca de um sentido, e não na transmissão de experiência) e à informação jornalística, formas alijadas da experiência.

Mas a história, como bem sabia Benjamin, não é seta sempre rumando adiante. E, seja por nostalgia, seja por gesto de resistência, a narrativa persiste aqui e ali, restaurando a magia dos mitos e tentando reencantar este mundo desencantado – como nesse Coraline e o mundo secreto (2009), de Henry Selick. Adaptação do romance homônimo de Niel Gaiman, Coraline revisita mitos clássicos (a história de Orfeu, a alegoria da caverna de Platão), contos de fada (João e Maria) e narrativas infanto-juvenis (Pinóquio, Alice no País das Maravilhas) para construir , em harmonia com suas fontes de inspiração, uma história de crescimento e transformação ao mesmo tempo imbuída de uma franca intenção pedagógica, mas evitando um didatismo fácil, moralista e cafona em que certo cinema “politicamente correto” feito para crianças se esbalda. Selick, como Tim Burton e Hayao Miyazaki, não se dispõe a dourar a pílula da aprendizagem: a conquista do autoconhecimento passa aqui pela dor e pelo medo em estado crus. Talvez por isto, em várias partes, crianças fizeram cara feia para Coraline, e educadores torceram o nariz para a pungência de certas cenas do filme.

A história de Coraline é a de um rito de passagem (da infância à adolescência): Coraline Jones, a protagonista, vive numa família pouco acolhedora (os pais sempre com a cara enfiada no computador), tem vizinhos malucos e um colega bastante inconveniente. A modorra de sua vida é quebrada quando ela descobre, no casarão onde mora, uma passagem secreta para um mundo paralelo ao mesmo tempo belo e sinistro, onde vivem seus “outros” pais, simulares fisicamente aos pais “verdadeiros” exceto por um detalhe: terem botões no lugar de olhos. (Diga-se de passagem, umas das maiores vitórias do filme, do ponto de vista técnico, foi o uso da profundidade de campo para diferençar os dois mundos). Esse outro mundo, que a princípio se mostra tão acolhedor, começa a derruir – moralmente falando, mas também em sua consistência ontológica – quando Coraline descobre que, se quiser ficar por lá, abandonando seus pais “verdadeiros”, terá de ... renunciar aos olhos (perceba o leitor o sentido simbólico), trocando-os por botões. E paro aqui de comentar o enredo. O dilaceramento de Coraline entre os dois mundos, como nos filmes de Tim Burton, de quem Selick já foi parceiro, é condição de aceitação da precariedade deste mundinho em que vivemos. Coraline, passado o rito, superado os medos, aprende a compreender, e não apenas a querer ser compreendida. Aprendizado difícil, e não só para crianças.
[Wanderson Lima]



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[revista dEsEnrEdoS - ano I - número 2 - teresina - piauí - setembro/outubro de 2009]
 

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