Eurycles Barreto: a poesia da Chapada Diamantina nos anos 30

Adriano Menezes - Uneb[1]





A literatura desenvolvida no Brasil do século XX passa inicialmente por momentos de ruptura e depois resgate de valores literários, reafirmados pelo desenvolvimento de uma nova crítica contemporânea. Partindo de radicalismos quanto à forma, ao tema, à estética, etc., temos o Modernismo dos anos 20, onde os jovens autores, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, por exemplo, desenvolveram uma literatura que, de fato, não chegou ao grande público leitor, embora tenha aberto as portas para uma maior liberdade no uso da palavra, bem como a consolidação da literatura como forma de arte no Brasil. Os rompimentos com os modelos literários dominantes foram fundamentais para um reconhecimento de outros ideais de beleza entre os literatos, proporcionando um processo de constantes transformações na literatura brasileira, como na década de 30, quando poetas como Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, entre outros, buscam alguns valores literários repugnados anteriormente, sem, entretanto, desconsiderar os manifestos que propugnavam uma nova poética ou o uso de temas mais ligados à realidade brasileira.

Paralelamente a essa efervescência cultural urbana, desenvolvia-se no interior do Brasil uma literatura conservadora dos recursos estilísticos tão combatidos pelos modernistas, mas dentro de um gosto popular dominante – ou pelo menos permanente – após a implantação de indústrias gráficas pelas cidades do interior, final do século XIX e início do século XX, fundamentais para sua veiculação. Esta literatura, então desprezada pelos “meios literários”, ou desconsiderada pela crítica, também sofria transformações, embora de modo diferenciado, gradativo, adequando suas rupturas, seja aos meios de divulgação ou aos paradigmas literários que permaneceram arraigados na mente dos seus autores. 

O poeta Eurycles Barreto nasceu em 1896 na cidade de Mundo Novo e, desde jovem, residente na cidade de Morro do Chapéu, Bahia, deve ser assim observado: por um lado, não demonstra um estilo desenvolvido paralelamente ao regionalismo dos anos 30 nas universidades e grandes centros nordestinos; por outro lado, reflete um período histórico em que se deu a implantação da indústria gráfica nos pequenos centros urbanos e, conseqüentemente, a formação de uma imprensa local, com a publicação de textos de autores, que passariam despercebidos das discussões teóricas dominantes. Com efeito, esta imprensa, mesmo tendo sido responsável pelo que pôde acontecer em nível literário no interior, com a publicação de textos e livros destes poetas, foi insuficiente para que tais textos não ficassem restritos apenas às comunidades locais – seja porque seus periódicos ficaram restritos às micro-regiões onde eram produzidos, sem grande difusão nos grandes centros; seja porque suas gráficas, quando publicavam obras, não faziam nada além de imprimi-las, ficando sua divulgação a cargo do próprio autor, restringindo-as a um público amigo ou, quando mais, conhecido.

Essa literatura interiorana não era reconhecida como tal no Brasil dos anos 30, ou melhor, estava fora dos meios acadêmicos da época, principalmente por ainda estar atrelada a um grupo de poetas herdeiros da boemia romântica, que ainda viam os versos como uma catarse para suas angústias individuais ou a poesia como um hobby, para aqueles que se propunham a trabalhar os versos, tal qual os simbolistas do fim do século XIX. Ocorrendo simultaneamente ao que se conhece por “regionalismo” (tomando por base a data do Manifesto Regionalista, de Gilberto Freire, 1926) – propostas que transitaram principalmente nos meios acadêmicos e funcionaram como um suporte para textos de alguns autores renomados –, pode-se perceber nesta composição de fora das academias uma base de valores literários trazida do que era combatido com ênfase desde os primeiros modernistas: dos românticos e dos simbolistas, o tema; dos parnasianos, a forma – embora utilizasse, às vezes, o verso livre tão defendido pelos modernistas –, evidenciando, assim, o distanciamento entre a literatura “regionalista” proposta e a literatura “regional”, do poeta do interior do estado e do país.

Construindo seus textos com traços de estilos literários que seguiam propostas diferentes, isto é, recorrendo à liberdade do verso modernista, do "sensacionismo" simbolista, e do sentimento romântico, o poeta Eurycles Barreto constrói os seus primeiros livros: Flores Incultas (1927) e Sertanejas (1935), com a marca de toda a miscelânea de paradigmas literários chegados ao seu conhecimento: para ele, “o poeta [ainda] é um sonhador (...)/ Ao beijo leve de suprema dor”, aquele que ainda busca na dor a sua justificativa para o ser poeta, aquele que “vive dentro de um sonho imaculado” ; por outro lado, embora esteja fazendo uso do verso livre, também percebemos a busca constante de musicalidade no uso de determinadas palavras e expressões que se tornaram “hábitos poéticos”, por causa de seu uso cada vez mais freqüente depois de uma arte literária industrializada: “sonhador”, “coração”, “pressentimentos”, “sepultura”, “lume”, por exemplo. Trata-se, portanto, de um poeta que chegou a conhecer o modernismo evidente nas academias, mas que conservou os parâmetros da poética dominante no século anterior, quando o texto escrito passou a circular mais por todo o Brasil.

Atualmente tem crescido significativamente o número de pesquisas desenvolvidas no Departamento da UNEB de Jacobina, assim como outras executadas em cursos de especialização, mestrado e doutorado nas universidades afora. Levando em conta pesquisas preliminares quando, através do jornal O Lidador, Jacobina (1935), pôde-se conhecer o livro Sertanejas, de Eurycles Barreto, publicado através de sua gráfica; assim como após o levantamento de uma breve cronologia da obra do poeta, constatamos a publicação de quatro livros, até aquela citada no jornal: Flores incultas (1927), A verdade na história e Apologia dos meses (1933) e Sertanejas (1935). Em um período de grandes transformações para a literatura nacional, Eurycles Barreto e outros escritores também passaram despercebidos por nossa história da literatura, pelos mais diversos motivos, tornando também necessário um levantamento historiográfico de seus contemporâneos,  além de um estudo mais aprofundado de sua vida e obra.

Devido ao crescente interesse pela literatura regional, não apenas por ser um documento histórico, excluído dos cânones literários, principalmente por sua importância para o contexto literário contemporâneo, hoje o pesquisador das Letras, notadamente da Literatura, necessita de instrumentação que lhe possibilite desenvolver cadastramento e interpretações de obras literárias. Nesse sentido, através desse projeto, iniciaremos alunos pesquisadores, isto é, monitores no contato com leituras teóricas e práticas de textos literários, ao mesmo tempo em que daremos início a um processo de sistematização de um banco de dados de autores de Jacobina e região nos anos 30.

A literatura regional da Chapada Diamantina foi pouco estudada de modo específico, fica apenas inserida no conjunto da literatura baiana ou ainda fora dos estudos realizados até então. Em uma recente antologia da poesia baiana, por exemplo, A poesia baiana no século XX, organizada por Assis Brasil, poetas que passaram despercebidos no contexto da literatura modernista desenvolvida na capital do estado, na década de 30, continuaram desconhecidos ou despercebidos em relação ao cânone aqui formado. Nosso estudo, portanto, parte das obras do autor encontradas em uma primeira coleta de dados, assim como textos publicados nos jornais Correio do Sertão e O Lidador, das cidades de Morro do Chapéu e Jacobina, respectivamente. Os livros Flores Incultas, de 1927, e Sertanejas, de 1935, são publicados em um período de grandes turbulências no meio intelectual baiano, que lançava em Salvador a revista Arco & Flexa (1928).


Apologia dos Meses

Iniciando uma abordagem da Apologia dos meses, de Eurycles Barretto, por seu próprio título, podemos visualizar um poeta que (des)valorizava o tempo de modo sutil, seja através de sua nota introdutória que reduz o ano a uma impressão humana diante de sua significação, ou, após desenhar cada mês em seus doze sonetos, demonstra em sua nota final o sofrimento humano diante do tempo e reduz o ano que se finda a esta única certeza que se tem: decepção diante do passado e incerteza quanto ao futuro.

Quando o ano principia,
A gente sente impressão
De que vai para a folia,
Levando grande alegria
Bem dentro do coração!...
(BARRETTO, 1933, p. 5)


... Mas, quando o ano se finda,
A certeza que se tem
É que, nas costas, ainda,
Nos bate a chibata linda
Dos desenganos, meu bem
(BARRETTO, 1933, p. 30)

Temos caracterizado o tempo como aquilo que passa e, como disse Heidegger, não é uma coisa como o ser, mas permanece constante em seu passar: “Ser e tempo determinam-se mutuamente; de tal maneira, contudo, que aquele – o ser – não pode ser abordado como temporal, nem este – o tempo – como entitativo”. (HEIDEGER, p. 252) Como elucida o filósofo, ficamos então diante de reflexões contraditórias, assim como no livro do poeta Eurycles Barretto em seu início (uma trova em prefácio) e seu fim (uma trova em posfácio), demonstrando um ser humano diante do tempo. Seria muita pretensão trabalharmos o livro Apologia dos meses por seu aspecto filosófico nas trovas citadas. Mas não devemos desconsiderar que a idéia do novo que sempre ocorre ao iniciar um ano, visão cíclica que pretende deixar o passado e olhar para o futuro de modo ideal, ocorre com um final determinado para o livro e para o homem: a única certeza que se pode ter é com relação ao passado, com sua “chibata linda / dos desenganos”.

O mês de Janeiro é desenhado pelo poeta como um “ano bom” porque todos desejam que assim o seja em seu primeiro dia, aliados à bela música da natureza representada pelos passarinhos e os hinos que emitem. A seguir, começando por um caminho no folclore da terra, o poeta retrata os costumes do brasileiro no mês: a busca de flores para a festa do dia da folia de reis; o autor finaliza o mês com o desejo de um ano bom durante as festas reduzido pela rapidez do tempo:

O sol resplende majestoso. Exalam
Casto perfume as flores. E, de reis,
Moças e velhas tagarelam, falam,
Buscando flores para o dia seis.
..................................................
Mas, vem o tempo que, veloz passando,
Janeiro leva a nos deixar pensando
Que as “Boas-festas” não nos voltam mais!....
(BARRETTO, 1933, p. 7)

A data do Terno de Reis, nome que pode ser, de acordo a regiões do país, folia de reis, reisado, etc., é o dia seis de janeiro, uma homenagem aos reis magos e seu reconhecimento pelo nascimento de Jesus, ou, como diz o autor ao iniciar seu livro, logo no início do ano “a gente sente a impressão/de que vai para a folia”; porém quando o tempo veloz vai passando no mês de janeiro as boas-festas não voltam, permanecendo apenas na lembrança ou no desejo. Composto em soneto decassilábico, o poema tem rimas alternadas nos quartetos e paralelas nos tercetos, com uma linguagem simples, onde o autor trabalha elementos do folclore nacional aliados à realidade do indivíduo do interior da Bahia, retratando desse modo um poeta preocupado com sua realidade, mesmo que não seja mostrada criticamente.

O mês de fevereiro é mostrado inicialmente de modo comparativo, utilizando um “menino travesso”, com “olhos vivos”, “riso afável” e espírito com “inúmeras quimeras” como referência; em seguida, vemos sua personificação e a relação metafórica que o pouco tempo da infância tem (vinte e oito ou vinte e nove dias) “Pra varrer as dores do Destino!” (BARRETTO, 1933, p. 9) Pode-se pensar na preocupação humana com o tempo como o elemento principal, se tomarmos em conta que o mês citado passa mais rapidamente que os outros componentes do ano. Porém, o que prevalece é o senso de humor do poeta, quando além da personificação desse período de tempo ele alude àquele que “traz ao mundo a maior das alegrias: / As mulheres falarem muito menos!” (Idem) Finalmente, observando a forma fixa de todo o livro Apologia dos meses, no poema “Fevereiro” temos mais um soneto decassilábico, diferente do primeiro poema apenas pela organização de suas rimas, agora bipolares e paralelas nos quartetos e alternadas nos sonetos.

O mês de março, diferente da alegoria do mês anterior, é tratado de modo melancólico e saudosista pelo poeta. Já na epígrafe pode-se perceber a causa do sentimentalismo espiritualista, quando trabalha uma dedicatória a seu “mano Péricles, desencarnado em 22 de março de 1912”. Pelo tom atribuído ao ato de morrer – “desencarnado” – poderíamos esperar uma visão menos sentimental, “mas, a questão é que a saudade insiste / Em me lembrar que no meu peito existe / Uma coisa que chora: o coração”. (BARRETTO, p. 11) Desse modo, podemos sintetizar a melancolia do poema “Março” com o estilo romântico tão presente ainda no conjunto da obra do poeta Eurycles Barretto.

Podemos focalizar, no poema “Abril”, a busca como elemento-chave. As imagens criadas para desenhar o nascer do dia são “flocos de luz” e os colibris em busca de flores para seu alimento. Em seguida, temos a imagem das “virgens” sonhadoras que mostram um riso de alegria porque é “primeiro de abril” : estas são as moças que buscavam “um Zinho” , “P’ra ser na vida o seu maior consolo...” Então, o poeta finaliza com a imagem bem humorada que teria deixado no mês de abril o “(...) pobre paciente / Representante do papel de tolo...” (BARRETTO, p. 13) Pode-se também destacar no poema, aliado à imagem de uma alvorada com neblinas, típica das regiões serranas, metaforizada em “flocos de alvorada”, um traço do comportamento humano em primeiro-de-abril – rir do outro em zombaria.

Retirado de seu primeiro livro, “Flores Incultas”, de 1927, o poema “Maio” tem em seu interior o princípio da igreja católica, que o denominou “mês de Maria”, culto à virgem Maria, expressão que inicia as três primeiras estrofes (dois quartetos e um terceto) – deixando diferente apenas a última (um terceto). Passeando pela natureza, o poeta traduz o mês primeiro quando descreve a estação do ano: o outono, como “Alcatifado  de mimosas flores”; em seguida pelo sonoro canto dos pássaros e a personificação dos astros pela mitologia greco-romana: Sol e Diana (Lua). Contudo, o poeta ao finalizar o soneto aludindo ao nome de uma santa sendo dito pelas “aves que esvoaçam” (BARRETTO, p. 15) e anunciam, permanece o princípio católico como aquele que descreve o mês de maio.

O mês de junho, por sua vez, diferente do mês de maio em seu aspecto místico, mesmo citando São João, pode nos mostrar o poeta retratista  que foi Eutycles Barretto. Nele, temos a junção de imagens como a transição das estações através da morte do Outono e de um Inverno que “chora de contente”, por exemplo, aliadas ao retrato da virgem em seu sonho e às fogueiras dos festejos juninos. Permanece como determinante a rapidez do tempo, que leva o mês, deixando uma lacuna para a “mocidade” que “(...) perguntando chora: / Oh, São João, tu voltas outra vez?” (BARRETTO, p. 17) Com a transição das estações pode-se abrir a possibilidade de aproveitar um bom vinho, característico para o consumo nestes meses frios das regiões do interior da Bahia nas festas juninas, referindo-se aos “beijos de Phalerno” [sic] – antigo vinho de Falerno, território da Campânia, Itália. Deve-se destacar ainda a caracterização da mulher jovem do interior na época, traço já demonstrado no poema “Abril”, que continua “dentro de um sonho, um sonho sempiterno”. Ela passa “alegre e feiticeira”, “garbosamente plácida e faceira” em um mundo imaginário: “como a pisar num paraíso eterno”, enquanto ocorrem as festas e as fogueiras:

Enquanto o Inverno chora de contente
E junho pega fogo, de repente,
Todo arrogante, aos dias vinte e três!
(BARRETTO, p. 17)

No mês de julho podemos visualizar o nacionalismo do poeta Eurycles Barretto ao reverenciar o dia dois de julho como data de orgulho para os brasileiros. Em referência aos contos de louvor pelo mundo, o poeta compara o mês de julho com “(...) o intrépido guerreiro, / Todo repleto de suprema glória!” (BARRETTO, p. 19) No caso do Brasil, com sua história ainda em construção, o poeta sente necessidade de relacionar o mês à data citada como determinante para sua independência política, finalizando com “bravos e imortais heróis” que os brasileiros assim tinham como elementos participantes.

O poema “Agosto” é uma fotografia da região serrana de Morro do Chapéu em sua transição para a primavera. Sua definição do mês parte de flores “pequeninas” e suas cores diversas, que levam ao poeta a doçura divina. Além das cores, é o cheiro das “boninas”  que “traduz amores”. É nesse mundo de flores belas que o “bardo” sente o prazer de cantar o mês como único ou aquele que, como diz o poeta, “não possui rival”. (BARRETTO, p. 21) A imagem desenhada a partir de um cenário ambiental, com flores, cores e odores pode ser vista pela ótica das sensações humanas, situando o poeta de maneira metalingüística em sua cantiga à natureza que o cerca.

O poeta escolhe como foco no mês de setembro o seu aspecto patriótico-nacionalista. Não que esteja em defesa de uma data tão presente para as histórias do Brasil, mas porque esta data leva os brasileiros a lembrarem o mês principalmente por ela: “Que o 7 de setembro fica escrito / Para sempre, em nossa alma, a fulgurar!”. Ele, por sua vez, considera o mês de setembro neste poema homônimo definido por seu aspecto sazonal de modo metafórico:

O mês da primavera! – que alegria
Setembro em seu decurso nos oferta!
E é por isso que a gente se desperta
Para saudar-lhe a doce fantasia:

Se rompe a aurora, se desponta o dia,
Temos a porta da ventura aberta,
Porque, Setembro mata a hipocondria
De quem palmilha pela estrada incerta

Da vida, entre aos vendavais da sorte
(...)
(BARRETTO, p. 23)

Embora não direcione sua imagem para algo típico da primavera – as flores –  como o fez no poema “Agosto”, as imagens delineadas a princípio levam o leitor a vê-las em uma proposição sugestiva : mês da primavera. Porém, o poeta vai além dessa imagem natural, partindo para uma relação do homem com sua imaginação e a esperança humana em um mês caracterizado por sua beleza floral, chegando até a data que fica tão presente para o imaginário brasileiro como uma marca interior. Enfim, é a alegria atribuída ao mês de setembro que determina uma nova possibilidade para a vida.

Por ser o mês de seu aniversário, outubro é bendito e querido pelo poeta “como a um pai idolatra o próprio filho...”.  Com versos truncados, tal qual o anterior em referência, o poeta argumenta que o mês é seu trilho “de dor, ou de ventura, ou riso, ou pranto!” Também caracterizado como um “mês sem beleza”, o poeta insiste em sua importância para seu interior. Nascido em 19 de outubro de 1896, a expressão “seus trinta e um caríssimos diamantes” serve como a metáfora dos dias que se passam levando o poeta à reflexão sobre seus sonhos, seus amores e sua vida que tem acrescida mais um ano de existência. (BARRETTO, p. 25)

O mês de novembro personificado aparece no texto de maneira vocativa, dialógica, onde o poeta explicita sua valorização por datas históricas, contrapondo-as ao Tempo, que passa e as leva consigo:

Décimo primeiro mês de cada ano,
Sagrada unção do povo brasileiro!
Quando apareces, todo prazenteiro,
Esplendoroso, delicado e ufano...

Vicejam flores no auriverde pano
– De minha Pátria o doce mensageiro –,
Para saudar-te o vulto soberano,
Teu sacrossanto vulto de luzeiro!
  (BARRETTO, p. 27)

Em contraposição à data da Proclamação da República no Brasil, implícita e valorizada nos dois primeiros quartetos, no último terceto o poeta então afirma ao mês de novembro que ele “ao império das coisas obedeces...”. Dentro desse sistema, ou império das coisas como diz o poeta, tem-se a imagem abstrata do Tempo, que aparece sereno, levando o mês a desaparecer consigo; e finalizando de modo aberto com a expressão “no horizonte da Paz”, o poema abre perspectivas sobre seu significado, seja em relação à intenção do autor ao usá-la, seja em relação aos significados plausíveis.

Dezembro, “ponto final” do ano que termina, desponta “dentro de uma prece”, assim como é acrescentada à vida mais um ano, quando o ser olha para seu próprio destino com ilusão que o aborrece. Assim como no poema anterior, o poeta trabalha o vocativo, quando delineia o cristianismo do dia vinte e cinco, quando “(...) a cruz se torna em melodias, / Porque dezembro se transforma em flores!”:

Mas, quem carrega aos ombros sua cruz
Da Fé, recorda que nasceu Jesus,
– Fonte do Amor mais puro que os amores –,

De ti. Dezembro, aos vinte e cinco dias...
(...)
(BARRETTO, p. 29)

Após descrever poeticamente todos os meses do ano, o poeta sintetiza sua dúvida sobre o tempo, posto que a única certeza que se tem quando o ano acaba é em relação ao passado, sendo o presente e o futuro um conjunto de dúvidas. Tendo como base teórica para a análise os estudos de Homi Bhabha, em O local da cultura, para melhor observarmos a diversidade cultural do Brasil e da Bahia, podemos entender o hibridismo cultural brasileiro através de uma poética que se utiliza de elementos estilísticos tradicionais, sem desconsiderar as novidades introduzidas pelos modernistas nas primeiras décadas do século XX e assim traçarmos linhas comparativas com a chamada literatura baiana da revista Arco & Flexa no mesmo período. Destarte podemos entender as peculiaridades da literatura interiorana que para sua própria existência não poderia chocar com os padrões literários de um restrito público leitor e buscar nele uma identidade para sua própria existência.


 

REFERÊNCIAS

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__________. Sertanejas. Jacobina (BA): Typographia de “O Lidador”, 1935.
ALVES, Ívia. Arco & Flexa/Contibuição para o estudo do modernismo. Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1990.
BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. 9ª. Ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 2000.
__________. Literatura e Sociedade. São Paulo: Nacional, 1976.
COUTINHO, Afrânio (org.). A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul-Americana, 1956-59.
FERRARA, Lucrécia D’Aléssio. A Estratégia dos Signos. 2ª. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.
HEIDEGGER, Martin. Conferências e Escritos Filosóficos. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
O CORREIO DO SERTÃO. Morro do Chapéu (BA), 1927-.
O LIDADOR. Jacobina (BA): Typographia d’O Lidador, 1933-1935.
PIGNATARI, Décio. Semiótica e Literatura. São Paulo: Cultrix, 1987.
__________. Informação, Linguagem. Comunicação. 3ª. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1969.
SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas Latino-americanas. São Paulo: Edusp, 1995.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira. Seus Fundamentos Econômicos. São Paulo: Civilização Brasileira, 1969.
TELLES, Gilberto Mendonça. Varguarda Européia e Modernismo Brasileiro. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1992.


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[01] Adriano Menezes é mestre em Literatura e Diversidade Cultural e professor de Literatura Brasileira na Uneb, Campus IV, Jacobina (BA).
[02]  Referência ao  Manifesto Pau-Brasil (1924), Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, Manifesto Regionalista (1926), de Gilberto Freyre.
[03]  Considerando para tal análise os estudos culturais de Homi Bhabha após os anos 60: O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
[04]  BARRETO, Eurycles. Sertanejas. Jacobina (BA): Typographia do “O Lidador”, 1935, p. 22.
[05]  Trote que se costuma passar no dia 1º de abril.
[06]  Qualquer homem; indivíduo, pessoa.
[07]  Coberto com alcatifa; atapetado.
[08]  Retratista por levar em consideração também sua profissão de fotógrafo.
[09]  Bela-margarida.
[10]  Tomo como base a idéia de proposição com função sugestiva, de Umberto Eco, em Obra Aberta, p. 76-78.
[11]  Que tem ou revela prazer; alegre, festivo, jovial.
[12]  Qualquer coisa que emite luz, que brilha; farol.


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]


 

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