ruminaçõesseleção de poemas
Donizete Galvão





escoiceados

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos
um burro
cinza malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.



sexta-feira da paixão


A mulher que ganhou os peixes
não traz os olhos cabisbaixos
nem os ombros arqueados.
Treze peixes finos e prateados
deslizaram para dentro da sacola.
a mulher que ganhou os peixes
dá uma gostosa gargalhada.
Para que bairro de Belo Horizonte
irá com sua sacola de peixes?
Vai comentar o presente
com o cobrador do ônibus?
Usará a frigideira preta
que fica no armário da pia?
Vai passar os peixes na farinha,
fritá-los e servi-los bem sequinhos.
Quem dividirá os peixes com ela?
O marido aposentado? Os filhos?
Haverá um gato eriçado
defendendo o inesperado das tripas?
A mulher que ganhou os peixes
não os salgou com sua mágoa.
Recebeu-os como um milagre
embora lhe fossem dados de esmola.



tatu-bola

Baldados os trabalhos e os dias,
os abraços em gente sem serventia
e os apertos de mão de última hora.
Ama só aqueles de quem nasceu,
a quem deu vida e os amigos
cujos afetos enraizaram-se na alma.
Que não se gaste apreço ao geral,
ao que por todo mundo é gostado,
às imagens e notícias em demasia.
Se o sabiá canta no abacateiro,
se a tristeza logo cedo faz visita,
essas miudezas de ordem própria
valem mais do que manchetes de jornal.
De tanto ver entusiasmo sem sustância,
como um tatu, cava um fundo buraco.
Quem cresceu só, aprecia a solidão
que o protege do mundo como um casco.
 


ostras

A ostra
e a aspereza
de sua crosta.
O acúmulo
de craca
nas rugas
da carapaça.
O cheiro podre
de mangue
entranha-se nos poros
e no tecido das narinas.
Lembram ao homem
seu invólucro de lama.

A ostra
se fecha
e na sua
caixa tosca
purifica-se,
protege-se
do lodo.
Oculta,
eleva
sua carne
ao limite
da sólida
pérola.



livro de cabeceira

Rói as unhas,
os cantos dos dedos
e os nós da mão
até que doer
seja uma forma
de esquecimento.
Lanha-se com
caco de vidro
cada pedaço da pele
para que se auto-revele
a urdidura de cicatrizes,
incunábulo, xilogravura,
esgar de máscara:
a dor como escritura.
 


(in Ruminações,Nankin Editorial,São Paulo, 2000)


____________________
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em1955. Poeta, jornalista e publicitário, atualmente mora em São Paulo. Pubicou Azul navalha (1988); As faces do rio (1991); Do silêncio da pedra (1996); A carne e o tempo (1997); Ruminações (2000) e Mundo mudo (2003).


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]

 

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