o que há dentro do muro não é assim tão bruto um pensamento sofre na argamassa que lhe cobre angústia o muro sente, desde antigamente: é cego todo sempre e só sabe apartar gente há pouco ouviu do chão com voz de escuridão que existem as paredes rijas tal qual ele a diferença é que elas têm uma janela e assim, pela janela, a parede enxerga janela é uma abertura não dói não sutura buraco sem reboco movendo-se no corpo se a obra tem janela, parede é o nome dela cimento e cal sem furo julgam ser um muro o muro, truvo e mudo, pensa e pensa em tudo sair daquele escuro e ver a luz do mundo deixar de ser um muro abrindo em si um furo ainda que esse corte lhe tombe à nula sorte não sabe como, ainda, mudar a sua química rejeita a vil certeza de não ter vista acesa deseja em seu chapisco, sim! correr o risco de ter a pele aberta e sentir o que é a janela e mesmo sem saber como vai ser outro ser o muro quer saída mudar mover a vida quer nem que seja a ida da simples dobradiça ou algo do por vir que lhe tire desse aqui
do começo não se sabe: se tem peso ou quanto vale se hoje nasce ou vira nunca ou é uma flor que abre em rugas
do começo, sim, se sabe: como idéia, onde ele cabe mora dentro e foi embora no espelho, é a cara do agora
o começo jamais muda feito o freio faz o lento tal qual a água queda em chuva tal qual o ar se move em vento
se constrói esse lugar de começo e mais começo onde os pés podem dançar sobre um som que não conheço
orelha sf - 1. é uma casa na cabeça – encerada e sem madeira não tem porta para entrar: recebe a ressonância e esse som reside lá. 2. clareia o ir do cego – seu sentido mais aberto. e mostra-lhe a cara do barulho ali por perto. 3. maquinaria que me deixa ereto. 4. canteiro de obras – estribo martelo bigorna. 5. caixa do tímpano aos cuidados do otorrino. 6. vontade não te põe em pé – e sim o interno ouvido. 7. quem tem transtorno de equilíbrio passa a se preocupar com isso. vai aprender palavra nova no hospital: vectonistagmografiadigital. 8. com vertigem e mal estar, suplica algo pra amparar. mas onde? não há nada com o que se pareça: é uma queda dentro da própria cabeça. 9. reabilita o labirinto – deitado, em pé, sentado – com roupas confortáveis – pra cima, pra baixo. 10. você precisará fixar o olhar – é o gancho para agarrar. 11. piracetam e cinarizina ajudam na circulação central três vezes ao dia. 12. sua freqüência se distancia da violência da microfonia. 13. mora também em página de livro antigo, mas essa não sabe dos brincos. 14. lugar pra compor o segredo de liqüidificador. 15. criança danada tinha a orelha puxada pra lembrar do certo – diz a história: a orelha é da deusa memória. 16. onde começa o saber. 17. ultraleve. 18. é concha sem mar na praia da pele e sob o cabelo espera um gesto que a revele
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Thiago E. é músico, compositor e integrante da Validuaté (pelos pátios partidos em festa, 2007 | alegria girar, 2009), poeta (cabeça de sol em cima do trem - ainda inédito | cd veículo q.s.p., 2010 | integrante do grupo academia onírica, http://www.poesiatarjapreta.blogspot.com/ ), editor (AO-revista nº 1 e nº 2, 2011). É formado em Letras, professor do ensino básico, revisor, driblador de gagueira e é doido pra ficar bom.
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número
12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]