canção do exílio na realidade

Renato Suttana

 



De ter descido tanto, de ter vindo
de algum país sublime, verdadeiro,
aonde deu por acaso o meu roteiro,
que aos poucos se anunciava, distribuindo

lugares e distâncias; de ter visto
aqueles litorais que mal sonhei,
que em meu fracasso lúcido inventei,
além do mar to tempo, no imprevisto;

de ter sido o Habitante, o Cidadão,
o que, sem qualquer truque ou subterfúgio,
mereceu encontrar porto e refúgio
entre aqueles que o tinham como irmão;

e ter vindo a rolar, como um arcanjo,
em direção ao que não pretendi,
entre as monções de um desolado Aqui,
onde tudo é despeito, esforço e arranjo –

onde o sol incendeia, descoberto,
um dia interminável de porquês,
feito de asperidade e lucidez,
como de areia e pedras um deserto

(como de aresta e nítido contorno
o perfil de um rochedo levantado
sobre a espuma de um mar que, encapelado,
ao meio-dia o açoita, sem suborno);

de ter vindo de Lá, de uma paragem
desconhecida e vã, mas luminosa,
mas nascida da noite perigosa
como uma fera que da isenta aragem

salta em plena quietude e se desdobra
em mandíbulas, garras, em rugidos,
na escuridão tão rica de ruídos;
de lá ter sido o autor de qualquer obra,

de ter dito a palavra, de ter sido
(a navegar como um marujo inglês
à superfície extrema da mudez)
quem a dissesse a um atencioso ouvido –

e ter vindo parar, arremessado
por sabe Deus que desastrada mão,
que desastrado esboço de tufão,
a um Agora de cinza, sono e enfado,

como um inseto pelo vento, em falso
(que finge nisto o mimo de um afago),
contra as águas anônimas de um lago
que lhe servem de espelho e cadafalso;

de ter vindo de sempre, de jamais
onde tudo era corpo de figura,
vontade, gume, cúmulo e estrutura,
a um deserto de arestas e cristais,

de pensamentos rudes e terrenos
(de mil preocupações justificadas
que entretanto nos pesam, carregadas
com o dente e a sutileza dos venenos)

que se raspam nas coisas parcamente,
que entre si se entrechocam, maldormidos,
procurando um consolo que, esquecidos
da noite de onde vêm, confusamente,

em si mesmos almejam encontrar:
uns contra os outros, cegos, amparados,
cheios de mundo e entanto devastados,
porque lhes falta o crivo de um lugar

(de um norte que os explique ou ratifique,
contra o fundo da treva que os sustenta
da noite escura à aurora nevoenta,
do gesto mudo à voz que o justifique);

ter desabado, de algum modo obscuro,
tropeçando em hipóteses e enganos,
guiado por improváveis portulanos
(como uma vil carcaça num monturo),

sobre um montão de ruínas (que entretanto
se misturam, no fundo, com o deserto,
de fato fazem parte do deserto
com o qual se confundem, sem encanto);

sem ter tido, no caso, culpa alguma
e sem ter cometido erro nenhum
(e sendo mesmo um qualquer, um comum,
um fulano, um a mais, a mera espuma

que flutuava no oceano inconsequente
de nunca desejar sentido ou coisa,
mas se gastando, branca e luminosa,
sobre o mover-se de onda, suficiente,

de seu próprio pensar), sem ter tomado
nenhuma decisão e sem ter feito
gesto nenhum em prol daquele efeito,
ter caído a tal ponto, ter tombado,

como um tronco abatido, para o chão,
para o que não é mais que terra e poeira –
terra de pensamento na cegueira,
poeira de claridade na intenção;

de ter sido lançado, inadvertido,
ao limite de um ermo, de um agreste,
sob a garra de um sol que me recreste,
certo de que no fim serei vencido

pela noite veloz, pela fadiga,
pelo tédio daquilo que encontrei
sob os escombros do que não busquei
e pertencia à sombra escura e antiga;

de ter vindo de longe, ter descido
por uma escada vítrea, transparente,
à parte baixa e reles do presente,
à fatal adstringência do vivido,

à inóspita planície do fastio,
à imemorial canícula do enfado,
ao desastre do dia ensolarado
(que é nuvem, margem, grama, pedra e rio);

de ter chegado aqui, por acidente,
aos arrancos ou não, ou tropeçando,
aos saltos ou sobre asas, me lançando
por cima de um oceano indiferente –

de tudo isto, que é nada e não importa
e que, no fim do cômputo, somado
ao resto, é zero ao zero acrescentado
(sombra a ocupar o vão de alguma porta),

é que me faço assim tão ressentido,
tão raivoso de um cisco, de uma cinza,
de uma niquice de que sou ranzinza,
de um vento que me deixa aborrecido,

de um verdadeiro nada com que implico
do amanhecer à noite, inamovível,
ultrapassando os lindes do cabível,
porque disso não passo, nisso fico:

parado, inerte, bruto, colossal,
pétreo, como se ao peso de um encargo,
de um compromisso que me torna amargo,
que me enfurece e com que lido mal.



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Renato Suttana (1966) é professor universitário e autor dos livros Visita do fantasma na noite (poesia, 2002), O livro da noite (prosa, 2005), João Cabral de Melo Neto: o poeta e a voz da modernidade (Editora Scortecci, 2005), Bichos (poesia, 2005), Uma poética do deslimite: poema e imagem na obra de Manoel de Barros (Editora da UFGD, 2009), Fim do verão (poesia, 2009) e Qualquer um (poesia, 2010).

site: O Arquivo de Renato Suttana



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]

 
 
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