A morte virá e terá os teus olhos — essa morte que nos acompanha de manhã à noite, insone, surda, como um velho remorso ou um vício absurdo. Os teus olhos serão uma inútil palavra, um grito calado, um silêncio. Assim os vês toda manhã quando a sós tu te espias no espelho. Ó, cara esperança, neste dia até nós saberemos que és a vida e és o nada.
Para todos a morte guarda um olhar. A morte virá e terá os teus olhos. Será como deixar um vício, como ver no espelho ressurgir um rosto morto, como escutar lábios fechados. Desceremos mudos ao abismo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
questa morte che ci accompagna dal mattino alla sera, insonne, sorda, come un vecchio rimorso o un vizio assurdo. I tuoi occhi saranno una vana parola, un grido taciuto, un silenzio. Così li vedi ogni mattina quando su te sola ti pieghi nello specchio. O cara speranza, quel giorno sapremo anche noi che sei la vita e sei il nulla Per tutti la morte ha uno sguardo. Verrà la morte e avrà i tuoi occhi. Sarà come smettere un vizio, come vedere nello specchio riemergere un viso morto, come ascoltare un labbro chiuso. Scenderemo nel gorgo muti.
Cesare Pavese (1908-1950) foi prosador, poeta e tradutor. Nasceu em Santo Stefano Belbo, nas Langhe (província de Cuneo), tendo-se mudado ainda em criança para Turim. Passou um ano na prisão em Barcaleone (Reggio Calabria), comprometido por amigos políticos. Escreveu tese de licenciatura sobre Walt Whitman. Traduziu para o seu idioma, entre outros, Charles Dickens, Herman Melville e James Joyce. Suicidou-se em Turim, em 1950. O poema acima traduzido encontra-se no livro póstumo Verrà la morte e avrà i tuoi occhi (1951).
Dirceu Villa nasceu em São Paulo, em 1975. Como poeta, publicou os livros MCMXCVIII (1998), Descort (2003) e Icterofagia (2008). Traduziu e anotou o livro de poemas Lustra (1916), de Ezra Pound, que permanece inédito. Possui ensaios, poemas e traduções publicados no México, Estados Unidos e País de Gales.