poesia

senda dedicada

Roberta Ferraz

 




0
Ao Gabriel Kolyniak

cacete

posto tudo dentro
tivesse de escapar faíscas
desbunde dourado –
vantagem líquida dos engarrafamentos

amar a forma dos cadáveres
aos trancos destilar
a alquimia das farpas sob os lábios


1
CAOS NULO
à Renata Huber

She doesn’t speak
                             – ela não fala
                           (quem sabe se chamasse
                           Esther Greenway)
                           prestes ao desperdício
                           aturde
                           olha gosma rumoreja
                           esconde na espreguiçadeira
                          e no cômodo herdado da escrivaninha
                          a paixão ardente
                          a volúpia casta
                          estes inflamados dramas de quem

engole, dorme então
sufocada
cheira ao tranqüilo de um mistério
o estreito do corpo devolve
à crisálida o casulo
que fustiga e espanca

as breves máscaras


2
MINUTA
à Lili

começas-te levantando
tudo deveria estar enclausurado de luz
nada te dizendo
que é fora ou dentro
vais arcar o universo na sombra

mas te levantas
e segues num roupão adejante
(branco limpo algodoeiro)
até a alça da cozinha
de onde olhas tudo

passas até a varanda
um homem azul trabalha a mansarda
de outro mundo, de outro mundo
te olha avulsa
apenas um lírio da paz
escandalizado
então avulsa escandalizada

pegas um corpo que receba
essa inexatidão
e seus coices

pegas um outro que rasgue
este corpo
enganosamente passivo

o coito
normalmente
é triste
nada de mais tenderás a ver

e o arranque desta aparição
tão fissurada em não-ser
dispõe-te para
a palavra
avulsa escandalizada
e
dificilmente
útil


3
O AGRIMENSOR
Ao Danilo Bueno

Desde que deixamos
rolar as cabeças por avenidas
munindo anomalias
com sortilégios dados socos
sangues odores e vacinas

Desde que este outro
me estranhe estrangule
e a pedra opaca duma pronta filosofia
marque o esmero dos trapos

O canto

foice que ampara
o orgulho e o monstro
das mesmas ruas
(nenhum mundo vazio)
desde que nos cobrimos
nestas penas e fúrias

O canto

ao sacrifício acolhedor
do coração dos deuses
os dias serão fractos
e a ampola nebulosa


4
KORÉ
à Hilda Hilst

esta noite tatuaste em minha cintura
uma borboleta
lugar comum do mistério

pé ante pé asmática cismo
o percurso pedra raptora

o vaso dilatador em alcance
despeja a gotícula do vinho
mordo

a perigosa busca por flores


5
OS PORTAIS
Ao Sergio Lucena

transforma-se a enseada em paisagem
nasce-se de um traço à altura da mão
sobre a terra arroxeada o ventre alonga
uma jangada a horizontalidade dos afetos

recebo a luz – é tão nítido
o triz que nos toca
onde somos, duplos, arqui-olhares
titubeantes solos na lonjura do fundo
pé sobre o concreto

os sóis se consomem em nos queimar
enquanto o rumo se elabora
rente à pele colorada

o olhar verte tempos temperados
habitamos sangüíneos
essa tessitura de barro em asa


6
CARTA de 31 de dezembro de 2008
à Mariana

cada outra vez algo mais de adiante
                                                  se bifurca oco
                                                  em nós

onde uma semeadura de gritos e alentos
invariantes a surdina adiantada
de uma indigestão

leve
mas
pedra

não sei das tuas mechas
tu te deitas ao sol

                              imune

eu
sento a olhar-te
cruelmente fosca
e douras
– porque eu não sei –
                               obtusa
o que era
obviedade
e
encanto


7
CABANA
Ao Marcelo F de Oliveira

arrepio ondulante
distante convés
vibrar emudecido
(antevoz) (o mais-nada) (preenchido)
vela
                                                         cordeirinhos do mar

canto passeando em sua própria ausência

piso quieta, viradeira, um bocejo entardece
espero ele voltar do mar

do retorno o mar é Tempo

amar assim
corpo todo duas águas
movimento-serenata
de um homem que se estende
inteiro
à variação dos mares


8
ANTÍNOO
A um amigo morto

Andar a bicicleta estrelada
quando a ultrapassagem rotatória
das mãos assolando as costas
trazem a memória de seu esquecimento

Foi um grosso hiato
encardido de tule e lama
preciso dentro da manhã
o desvio noturno

Não estava morto ou vivo
e na vigília se desfiava
a coesão pedalada do tempo

Estava aquilo
febre de infância de outro lado
acima-dentro lacunar indício
mostrando-me fumaças
afásicas, ritual
– o exercício sobre a matéria
do gostar lembrar desvão
adornado –

o então-poema
lento
cheio de húmus


9
DENSA UMIDADE E CASTANHAS
à Maria Lucia Dal Farra

persegue-me não sei de quando
a figuração íntima da planície
recém-molhada ao que pastoreio
a castanha-do-pará entre os dentes
e o caroço cede à mais
lânguida antecipação da língua

esta infância vem do que um minuto
há-de-ser:
(em que o atento torne o mundo
poesia)
a transparência de uma alfafa
roxa eu uso como um abanico
e em Andaluzia escorrego
(com mel e especiarias)
àquela tenda frágil e viscosa que
(no meu entendimento)
nutre a amendoeira
enterrada no átrio da casa de minha avó
o grão-quintal de todas as lajes

Mãe de uns mistérios fechados
ao dizer, visto a casa
do pão, antro colhido no mesmo repasto
em que à tua voz me talho
ao alvejar colorir-te num mosaico
de Cretas lilases memorando
a vindima o vaudevile de teu ateio


10
EVANA KOMARIS
aos ‘Caprichos’ de Adília sentada em tarde vaporosa nos latifúndios da Fé

em toda casa um cômodo que acanha
uma criança medonha uma nervura da fragilidade
roída para debaixo de nossas talas
em todo quarto o armário sonâmbulo que extravia
a porta a abrir uma porta a fechar
sentados os invictos da masmorra mastigam
a carne assada de um nobre porco silvestre
balbuciando nas faces um desdém interdito
e livre
uma sincera fuga por dentro do garfo

a criança acolhida em suas tranças
                                  (logo serão tolhidas)
sabe de todos os jogos e malícias e atua muito bem
por fora de seu espantalho
seu corpo temido e venéreo seu corpo acobertado
com tralhas e bonecas e palavras que não combinava
com aquele olhar da mãe aquele olhar salubre da família

e só assim eu tento o lastro jubiloso
olhando pelo negativo das caras
aquele meio-fio negro e branco
aquela caricatura de bolhas
ameaçadas dentro das minhas axilas

aquele código que circula
na voz da terrível vida
do sangue


11
LUÍS OU MARIANA
ao champ de coquelicots près de Virgínia Boechat

Vermelha
ir costurar-te
nas fibras de outras imagens

onde flores
solitárias dormideiras alcoolicas
(outros diriam a rosa-louca
o mimo-de-vênus)
deixam-se prolongar
encerrando o extrato
das sementes imaturas

Haverá elipse entre o canto
e a curva

Haverá elipse
onde foi nome

soma constante das ausências
alteradas

Poesia por necessidade


12
FISSURA
à Ana C.


este é o truque maior

numa primeira trama
falha esmiuçando o terreno
de uma cara-de-pau, a minha
casa

até ajudaria compor o mapa

este é o truque:
deixar migalha entre
migalha

viver
como
uma mulher que escreve


 

 

Roberta Ferraz possui graduação em Letras-Português pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP 2004) e História pela Universidade de São Paulo (USP/SP 2007). É mestre em Literatura Portuguesa, pela USP/SP (2008), tendo defendido a dissertação “Entre Douroe-Mundo: mito e literatura na revista Nova Renascença”. Integra o grupo de estudos NELLPE - Núcleo de Estudos das Literaturas de Língua Portuguesa e Ética (USP). Fundadou e coordenou, entre 2009 e 2010, o Espaço Maranus - cursos e astrologia. Autora do livro de contos literários Desfiladeiro (2003, Ed. Nativa – esgotado); do livro de poesia lacrimatórios, enócoas (2009, ed. Oficina Raquel), livro vencedor do Programa Nascente (USP) de 2007; do livro Dioniso e Ariadne (2010, edição do autor) e também do livro fio, fenda,falésia (2010, edição de autor), escrito em parceria com Érica Zíngano e Renata Huber, com apoio do ProAc 2009 Secretaria da Cultura do Estado de SP. Escreveu em diversas revistas literárias e culturais. Mantém o blog www.eleusiana.blogspot.com, no qual está disponível uma lista de seus textos publicados online.


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
dEsEnrEdoS está indexada em:

  Site Map